Agatha Faitarone Contato
Existência

Sobre estar cansada de explicar a si mesma.

Há um cansaço que não vem do que aconteceu, mas de ter que contar de novo. Explicar por que você não quer aquilo que todo mundo quer. Explicar por que a sua relação é séria. Explicar por que ainda não decidiu, por que decidiu assim, por que mudou de ideia.

Esse cansaço tem uma característica: ele não aparece nos exames e não cabe direito em uma queixa. Quem sente costuma chegar à terapia dizendo que está sem energia, sem paciência ou sem vontade — e demora até perceber que boa parte da energia foi gasta traduzindo a própria vida para quem cobra tradução.

Existir antes de explicar

A fenomenologia existencial parte de uma ideia simples: a experiência vem antes da explicação. Primeiro você vive, depois tenta dar nome. Quando a exigência de justificar chega cedo demais, a experiência é interrompida no meio — você para de sentir para começar a argumentar.

Na clínica, isso aparece como uma dificuldade de saber o que se quer. Não porque a pessoa não saiba, mas porque ela aprendeu a consultar a reação alheia antes de consultar a si mesma.

Os papéis que a gente aceita sem perceber

Boa parte do que chamamos de personalidade é resposta: à família, à escola, ao trabalho, ao que se espera de uma mulher, de uma filha, de uma profissional. Esses papéis não são falsos — eles nos constituem. Mas quando são vividos como obrigação, começam a apertar.

A pergunta que costuma organizar o processo é essa: quem você é quando para de cumprir papéis? Não se trata de abandonar tudo, e sim de perceber o que você faz por escolha e o que faz por automatismo.

Liberdade não é ausência de limite

Existir livremente não significa fazer o que se quer. Significa reconhecer que, dentro das condições que você não escolheu — sua história, seu corpo, seu contexto —, ainda há um espaço de decisão. Esse espaço costuma ser menor do que gostaríamos e maior do que supomos.

Trabalhar esse espaço é concreto: identificar o que já está decidido, o que ainda está aberto, o que você vem adiando por medo da reação dos outros.

O silêncio como recurso

Uma parte importante da terapia é poder ficar em silêncio sem que isso seja lido como resistência. Nem tudo precisa virar frase imediatamente. Há experiências que só se organizam depois de um tempo, e apressar a formulação é uma forma de perdê-las.

Um espaço em que você não precisa se explicar não é um espaço em que nada se diz. É um espaço em que a fala acontece no seu tempo, e não no tempo da cobrança.

Estar cansada de explicar a si mesma pode ser o começo de uma conversa diferente: uma em que a pergunta não é "por quê?", mas "como tem sido?".

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